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WEB 2.0: Rumo à Democracia Virtual? Tereza Porto * Apesar de estar experimentando hoje o que talvez seja o ápice de sua fama, o termo Web 2.0 já não é novidade para muitos de nós. A origem da expressão remonta ao ano de 2004, quando representantes da editora OReilly e da promotora de eventos MediaLive realizaram uma sessão de brainstorming para conceber um congresso sobre Internet. Naquela oportunidade, Dale Dougherty, vice-presidente da OReilly, teria manifestado pela primeira vez a idéia da Web 2.0. A conferência realizada em outubro daquele mesmo ano foi um grande sucesso, que se repetiu nas edições seguintes, em 2005 e 2006. O grande acontecimento, entretanto, ficou por conta do advento do nome Web 2.0, que roubou a cena e já aparece mais de 100 milhões de vezes no Google. Mesmo estando tão em voga no momento, pode haver quem não saiba, ao certo, o que vem a ser essa tal de Web 2.0 e, por isso, cabe aqui uma breve definição. Comumente chamada de segunda fase ou geração da Internet, a Web 2.0 consiste basicamente num novo paradigma de comunicação e de produção de conteúdo na grande rede, onde o conceito de troca de informações e de colaboração dos internautas é reforçado, tornando o ambiente online mais dinâmico. Em outras palavras, é um modelo que confere maior autonomia aos usuários, os quais passam a gerar, alterar e publicar, eles próprios, os conteúdos de determinados sites, interagindo entre si para o aprimoramento e para a criação de novos portais e serviços virtuais. Nessa via de mão-dupla, o internauta deixa de ser passivo diante da web e começa a contribuir com o compartilhamento de informações, produzindo conhecimento, elemento absolutamente estratégico no mundo contemporâneo. É o que a jornalista Ana Redig, primeira webmaster do sexo feminino no Brasil, define como inteligência coletiva: (...) a Web 2.0 é a interação entre seres humanos com o objetivo de somar [através da Internet] o que se sabe com o que se deseja saber. Nesta conta um tanto louca, o resultado é a multiplicação dos saberes. Parece mágica, mas é inteligência coletiva. (1) Dentre as ferramentas de Web 2.0 que possibilitam essa colaboração intelectual, as mais usadas e mais conhecidas atualmente são as wikis, páginas comunitárias na Internet que podem ser alteradas por todos os usuários que têm direitos de acesso, constituindo uma maneira fácil de trocar idéias dentro de determinado grupo; os blogs, sites de baixo custo para publicação de conteúdos na web, disponíveis para milhões de usuários; e os leitores de RSS (really simple syndication ou distribuição realmente simples), programas que reúnem os textos de nossos sites preferidos em uma única tela e nos avisam quando novidades são publicadas na Internet, também chamados de agregadores de notícias. Outras ferramentas tipicamente Web 2.0 não ficam para trás em termos de utilização e popularidade. Home-pages mais relacionadas a entretenimento, como os sites de compartilhamento de vídeos (YouTube), de fotos (Flickr.com) e de músicas (Napster), além das polêmicas redes sociais orgânicas, tais como Orkut e My Space, dentre outras, viraram uma verdadeira febre entre internautas de todas as idades, interessados em participar ativamente na formulação e na disponibilização de material online, sempre de forma colaborativa. Além da forte interatividade,
outros elementos caracterizam a Web 2.0, como a oferta de serviços
virtuais, na maioria das vezes interligados, e a utilização
da Internet como plataforma, onde rodam verdadeiros sites aplicativos,
com editores de texto, planilhas e programas de correio eletrônico
que simplesmente substituem o desktop do usuário, algo inimaginável
há alguns poucos anos. Para criar esses aplicativos e serviços interativos, os desenvolvedores da segunda geração da Internet têm utilizado de forma ampla o protocolo Ajax (abreviação de JavaScript e XML assíncrono), tecnologia que abriu as portas para que novos programas pudessem ser executados na web da mesma maneira que rodavam em nossos computadores pessoais, ou de forma ainda melhor, já que dispensam instalação, backups, não apresentam bugs e não são infectados por vírus. Graças ao Ajax, o foco da Internet pôde sair da informação e passar à interação, transição que representou um ganho significativo em termos de construção de conhecimento. A despeito de tantas evidências
acerca da relevância das mudanças e dos benefícios
que vieram a reboque do surgimento da Web 2.0, há quem diga que
a segunda fase da world wide web não passa de um grande golpe
de marketing, já que, em princípio, a interatividade sempre
esteve presente no mundo digital, não havendo, portanto, motivos
reais para tanta euforia em torno desse assunto. No contexto dos governos, aliás, a Web 2.0 tende a gerar uma verdadeira revolução em termos de relacionamento com a população e vice-versa. Se hoje em dia algumas iniciativas da chamada democracia participativa já são uma realidade, como é o caso do orçamento participativo praticado com êxito nas cidades brasileiras de Recife e Porto Alegre, por exemplo , a expectativa é de que, com a segunda geração da Internet, passemos a uma democracia virtual, talvez nunca antes imaginada. Isso significa que saímos do primeiro estágio da democracia, representado basicamente pelo sufrágio universal; passamos pela fase participativa, onde, além de votar nos nossos representantes políticos, podemos opinar acerca de determinadas decisões e ações do governo; e nos encaminhamos para um terceiro nível democrático, no qual essa participação poderá ser exercida remotamente, através da web. O leitor já imaginou se, em vez
de escolhermos os representantes que votarão as leis, pudéssemos
votar, nós mesmos, diretamente na lei, sem intermediários?
E tudo isso de forma simples, sem burocracia, utilizando somente a Internet?
Não, não é uma utopia, em absoluto. Pelo contrário,
é uma possibilidade cada vez mais viável depois do nascimento
da Web 2.0. Obviamente, essa possibilidade está atrelada à
condição sine qua non de universalização
do acesso à web em banda larga. A revolução no relacionamento do governo com o cidadão, ao nível de uma democracia virtual, carece também de uma profunda mudança cultural, que certamente demorará muitos e muitos anos para acontecer de fato. O que não representa, necessariamente, a inviabilidade de sua concretização. Por enquanto, a Web 2.0 está sendo responsável por pequenas modificações no governo eletrônico G2C (government to citizen ou governo-cidadão). Dentre outras coisas, a interatividade e o foco nos serviços online disponibilizados para a população têm sido priorizados nesse tipo de comunicação, bem ao gosto da nova geração da Internet. Saindo do âmbito governamental e assumindo o ponto de vista do cidadão, foco desta coluna, a Web 2.0 reveste-se de um enorme potencial inclusivo. Com a criação do HD virtual, por exemplo, a possibilidade de manter documentos e planilhas pessoais arquivados em meio digital foi estendida a todo e qualquer usuário, mesmo àqueles que não possuem computador. Basta acessar a Internet a partir do micro da casa de um amigo, de uma lan house ou de um telecentro público e pronto, lá está o seu desktop. E se os aplicativos estão online, então até mesmo os gastos com licenças de softwares são reduzidos, tornando a informática ainda mais acessível à população de menor poder aquisitivo. Várias outras possibilidades oferecidas pela segunda geração da world wide web, tanto para os cidadãos quanto para os governos e empresas, poderiam ser vislumbradas nesse momento. E já o são, de alguma forma, à medida em que conceitos bem mais avançados, como o da chamada Web Semântica, são estudados por profissionais em diversas organizações e já colocados em prática, de modo ainda preliminar, em sites acadêmicos. Ela representaria a evolução natural da Internet para sua terceira geração, da seguinte forma: a partir do uso intensivo de metadados (dados sobre outros dados) e da aplicação de linguagens específicas aliadas à tecnologia de domínios ou ontologias, a Web Semântica daria significado semântico ao conteúdo das páginas existentes no mundo virtual, criando um ambiente onde agentes de software (máquinas) e usuários trabalhem de forma cooperativa. Em linhas gerais, os computadores ganhariam a capacidade de interpretar dados, simplificando a pesquisa e os serviços para atender às demandas dos usuários. Em 2004, quando estes estudos já
estavam razoavelmente difundidos viram como a suposta e popularizada
chegada avassaladora da web 2.0, em 2006, tinha mesmo uma
certa embalagem de marketing bem executado? calculava-se que
o número de novas páginas criadas viria a crescer 50%
a cada ano, que apenas 20% delas estariam acessíveis e somente
62% apresentariam conteúdo novo, tornando o recurso de uma interpretação
semântica de tudo o que há disponível na rede algo
completamente imprescindível. Até hoje, alguns dos principais
problemas da Internet tem a ver com falta de precisão das ferramentas
de busca de informação, baseadas em palavras-chave incapazes
de oferecer a contextualização necessária para
que o conteúdo possa ser não apenas lido,
mas processado pela máquina. Exatamente para resolver a questão é que se pensou nesta modalidade de representação formal, precisa e não-ambígua do conteúdo que é a Web Semântica, cujas linguagens oficiais são o XML (Extensive Markup Language), o RDF (Resource Description Framework) modelo de metadados que liga os recursos disponíveis na web e o OWL (Ontology Web Language) linguagem de representação de ontologias , dos quais muitos também já ouviram falar. Não há dúvidas, portanto, de que uma verdadeira Revolução Industrial da Internet, se já não é real, está bem próxima, carregando consigo uma sucessão bem ligeira de gerações para as quais é preciso ter olhos e mentes abertas. (1) Web 2.0 tem um estilo. Mas
não é forma, é conteúdo, de Ana Redig,
publicado em 11/08/2006 disponível em Webinsider |
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| * Tereza Porto é analista de sistemas formada pela Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ), com especialização em Banco de Dados em Ambiente Cliente / Servidor pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio). Após atuar na iniciativa privada, entre 1995 e 1998, participou do projeto de informatização do Ministério Público do Rio de Janeiro. Atualmente ocupa o cargo de presidente do Centro de Tecnologia da Informação e Comunicação do Estado do Rio de Janeiro (PRODERJ), sendo responsável por diversos projetos de grande importância para o governo e a população fluminenses. Exerce também o segundo mandato à frente da Associação Brasileira de Entidades Estaduais de Tecnologia da Informação e Comunicação (ABEP), além de coordenar o Comitê de Inclusão Digital desta, com o objetivo de disseminar o ensino de informática e o uso da internet, promovendo a universalização do acesso do cidadão à tecnologia. | |||||
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Este texto foi transcrito do site http://www.aliceramos.com com a devida autorização da Sra. Tereza Porto. |
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